De repente o fogo estava invadindo meu quarto, fogo que não consegui decifrar de onde vinha, tudo era tão claro e tão escuro. Tentei chamar por você, onde você estava? De onde vinham aquelas labaredas? Tive medo da casa desabar. Gritei os nomes da família, a voz não saiu, senti um gosto de fumaça, um gosto vermelho ao ver todas as minhas coisas pegando fogo. Minhas lembranças, meus livros, logo seria eu. Parecia inevitável.
Se era um incêndio, por que não havia ninguém tentando me salvar? Eu estava perdendo todas as faculdades, enquanto inalava aquele ar, perderia a memória e a consciência quando morresse? Estas duas deveriam ser guardadas junto com a alma, caso contrário seria eu somente mais uma alma sem história, sem saber? Uma alma de um corpo que morreu sem saber o porquê?
Eu ainda estava viva, deveria tentar sobreviver. Não tentei apagar nenhuma labareda, não tentei desviar. Consternação, destino - as únicas palavras que consegui pensar - palavras tão vermelhas e eu não vi mais nada.
Quando acordei, você estava ao meu lado, me dizendo bom dia com os seus olhos doces e pela sua pele quente pude entender porque estiveram tão vermelhos meus sonhos.
E agora, assim, tudo estava inexplicavelmente bom.
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