É bem simples ser qualquer. Da fila do bar, do cinema, do supermercado. O cara que ajudou a levar os quatro copos e a garrafa de cerveja até a mesa onde as amigas conversavam amenidades e confidenciavam pequenas sacanagens.
Ser um cara gentil não é difícil, basta um papo agradável ou bastam algumas doses de cerveja que até conversa flua: profissão, idade, internet, desenhos antigos até o ponto que a pêlofobia humana e as manias de homem viram papos legais. O cara, ou melhor, o ser humano do sexo oposto, ainda sentado à frente enquanto as amigas dançam e paqueram caras aleatórios, ri dos neologismos e fica intrigado com a falta de curiosidade na vida alheia. Pretextos à parte, os dois acabam a noite juntos, escorados em uma das paredes do barzinho com direito à beijos demorados e uma rápida troca de e-mails.
As amigas, visivelmente e verbalmente mais excitadas com a situação, acreditam piamente na sorte para "caras bonitos e inteligentes" e são capazes de conjecturas sobre diversas ascensões: peniana e salariais. Se ele é o cara legal, ela merece ser uma garota legal.
Enquanto as amigas falam, a garota legal só procura por uma música melhor no som do carro. O cd gravado especialmente para aquela noite parece as "dez mais" de qualquer rádio FM. Ela não está preocupada com a carreira promissora dele, já se preocupou demais em consolidar carreiras alheias, uma das vantagens em namorar caras bonitos e inteligentes. Para abstrair tudo aquilo, concentra-se na faixa cinco do cd e pensa em alguns porquês absurdos - ela gostaria de sorrir ao tirar fotos para documentos, isto é uma coisa que lhe incomoda muito, se a feição do ser humano normal muda ao sorrir, a de um ser humano bem humorado não mudaria. Ela não é um tipo que mereça o título de bem humorada, embora também quisesse ser isto, é só a garota legal de uma história.
Algumas trocas de e-mails depois, o simples cara já aparece como uma espécie de novo amor da vida, e as amigas sabem que a companhia da garota legal pressupõe a companhia do cara bonito e inteligente da outra noite, um pacote dois em um, sempre é o começo de uma chatice.
Tudo vai acabar depois de uma discussão sobre um tufo de cabelo comprido no ralo do banheiro, uma mania de guardar cuecas sujas na gaveta ou ainda, na melhor das hipóteses o fato de terem descoberto que ele era só um cara e ela só uma garota. Ao final, nem tão legais assim.
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