24 de março de 2010

Familiar

Foi a primeira vez que deixei você, não queria sentir pela última vez seu cheiro, queria beijar sua face, suas mãos e agradecer infinitamente pela vida que me trouxe, vida estampada em mim, graças a você.

Não pude me despedir, não pude dizer que amo você porque não poderia me ver chorar, não poderia ver o desespero em meu rosto, nem o medo de perder você para quem quer que fosse: a doença, a solidão, a morte. Criança assustada, mãe de sua mãe.

Parti do hospital no exato momento que deixei você aos cuidados de uma equipe que nunca poderiam amar nenhum dos milhares de pacientes que recebe. Confiando somente na esperança que pulsava em mim, ar que eu respiro.

Arrependi-me de todas as minhas desobediências, senti o ranço de todas as palmadas que você não me deu e o eco das infinitas horas de discussões, regadas à sermões morais e sentimentais.

Senti a pulgência e a urgência do meu amor por você, quando nos olhamos e na despedida, mesmo nosso desejo fosse fugir, pegar o primeiro avião (que você diz morrer de medo) só para levá-la comigo onde ninguém jamais nos fizesse mal.

E um cordão restabeleceu-se, ramificado em palavras, quais fora você minha primeira mestra. Maestra, mãe e mestra.

Com sua fortaleza e maestria insondáveis, venceu. Fez o que faz há tantos anos, com o apoio do meu sorriso nervoso e a agonia indisfarçável do meu coração.

Mãe, estou esperando por você. Estou esperando que você saia desta sala de recuperação, uma vez que a cirurgia já acabou. Espero ver seu sorriso confiante me dizendo que vamos ser felizes, sua frase favorita que estive a repetir como um mantra durante esta nossa pequena angústia familiar.

Hoje não pedirei para dormir em sua cama pois o susto já passou, não é necessário me acalentar por causa do meu coração partido, não tenho febre, gripes ou cólicas. Hoje eu só preciso que esteja bem, só preciso do seu cheirinho para cessar meu choro e me fazer dormir como quando eu era apenas um bebê.

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