13 de março de 2010

Do verbo ter

Os meus sambas antigos agora convivem pacificamente com Lady GaGa porque algo mudou em mim. E toda a minha melancolia e a poesia do Vinicius de Moraes, tudo fica pra depois só porque eu decidi que preciso malhar, fazer o cabelo, as unhas, correr em volta do lago ou brincar de stop on-line.
E preciso priorizar os telefonemas, as festas, bem como a escolha dos vestidos. Não posso esquecer da alimentação, da hidratação, muito menos do rímel novo.
Em alguma destas madrugadas, em meio ao esforço para tirar a maquiagem, em meio à bebedeira ou enquanto um corpo de homem farto repousa a meu lado, olharei para os livros e para meus discos. Eu os olharei com o saudosismo da primeira leitura ou a surpresa da primeira audição.
Levantarei do repouso, por um momento sairei da inércia em que me encontro e, num turbilhão, me lembrarei de você.
Todas as vozes dos poetas, como uma torre de babel, num único pensamento. Todas as canções, todos os nossos ais e todas as minhas lágrimas, no grande íntimo da noite.
Abraçarei algum volume da minha tímida biblioteca, talvez algum que já tenha emprestado a você ou talvez o nosso Drummond, adormecerei. Nada me importará, porque houve você. O homem ao meu lado pode vestir-se e partir, não me importarei. Eu, agora, abraçada a este livro e amarrada às minhas lembranças, terei você.
Mas tudo foi só um sonho: a futilidade, o homem, o livro, o abraço. Só você não passa quando a noite termina.

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