Choveu, amor. É mais um inverno que chega neste exílio gélido, como tudo o que sobrou.
É só o tempo, esta força mutável, sujeito à previsão de seus fenômenos, daqui três meses tudo estará florido, só lembrarei do frio que outrora contrastou com nossos corpos quentes, prometo.
Mas minha memória dispensa condições meteorológicas, pois aqui há tempos só chove. Contra e acima de todos os sentimentos nela inscritos, há o amor.
Há para lembrar que existiu amizade, paixão, admiração, respeito. Todos estes sentimentos por trás de gelo, lama, lodo e musgo.
Tudo parece máculas que não são, nem pretendem ser. É só um desejo de amar tão profundamente.
Porque quando eu fecho os olhos, é você quem vejo; sob todos os ângulos, sob todas as luzes, em todos os delírios e fantasias, você está. Dilacerando minhas alegrias diárias, para mostrar que o tempo, faça frio - quando você me esquenta- faça calor, não cura nada. Chronos não cura seu riso em mim, sua fala amorosa, suas histórias, a nossa história, nem sua habilidade de preencher minha vida.
Somos só nós dois, de novo, em qualquer lugar onde eu possa correr ao seu encontro. Onde eu possa lhe abraçar forte e me apoiar, estamos contra todas as dores do mundo, buscando o começo de qualquer coisa feliz e azul, homem meu.
É para já que eu preciso contar as novidades, beijar seus lábios, ser feliz. É agora que preciso retirar todo o mofo dos meus sentimentos e entregá-los a você. Agora, nesta e em outras madrugadas frias eu quero dividir espaços e vãos de dedos.
Venha me tirar do exílio. Seja aquele com o qual fantasiei, perfeito nas imperfeições. Perfeito sendo quem-quer-que-seja. Porque, amor, somos o desconhecido neste tempo invernal.
"E o meu medo é do seu medo de ter medo. Porque não quero amizade, paixão, carinho, admiração, respeito, ternura, tesão. Quero o que é e não tem muro".
Caio Fernando Abreu
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