Olha, não sei se você se lembra de grandes coisas desde que começamos esta história maluca, que já durou muito mais que poderia imaginar até a mais otimista ou mais apaixonada das pessoas; às vezes penso que sua memória se concentra naquela minha bebedeira horrível ou no dia em que lhe disse tchau porque realmente pensava que nunca mais iria lhe veria na vida.
Eu pensei que a vida da gente era uma linha do tempo, até conhecer você. Uma simples e contínua linha: do maternal ao PhD, da inocência à sacanagem ou do nascer-reproduzir-morrer. Mas você veio para mudar tudo, você sempre me pareceu isto, mas só o que mudou foi minha ideia de linha da vida.
Quantas noites já se foram? Eu nem consigo mais contar, assim como não sei medir quantas saudades já senti, nem contabilizar quantas histórias já quis contar para você quando já não estava mais aqui...Nem sei o quanto já te odiei ou ao menos quantas vezes escrevi seu nome naquele vapor que se forma no box do banheiro.
O amor já aconteceu para mim e é só isso que posso ter certeza quando eu lhe vejo. Ou quando acordo e quero voltar pro mesmo sonho porque eu estava xingando você no cara-a cara. O amor acontece para mim toda vez que você cede aos desejos que não são só meus e quando eu ouço sua risada e sua voz em mim.
Do tudo que aprendi neste tempo, das coisas que guarda minha memória, nada é mais relevante do que ter descoberto que o amor é um tanto quanto carnal. E carne pode ser voz ou língua, músculos, dedos ou carícias; mas o nosso amor é sempre carne.
Mas esta história maluca, repleta de carnes, noites, tanta linha do tempo pra tanto amor me faz sentir um remorsozinho só meu.
Remorso de não ter você sempre por aqui, remorso de ver que todas as outras pessoas no mundo conseguem seguir em frente e nós não. E se a vida está seguindo e todos os movimentos naturais tendem ao desenvolvimento, nós continuamos assim: andando como dois bobos em uma espécie de velha e lenta esteira ergométrica do amor, sem nunca sair do lugar, sem aumentar a velocidade nem diminuí-la, em um velho hábito de quem não quer mudar absolutamente nada.
Sei que daqui algumas semanas estarei habituada a não ter você tão forte em meus pensamentos, talvez lhe escreva um texto ou dois, alguma coisa ficará na memória, alguma amiga perguntará "em que pé anda nós dois", nada sério, mas a ergométrica do amor ainda estará aqui...Até que a gente decida parar de patinar tanto assim e deixar que a vida volte à sua normalidade.
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