terça-feira, 4 de março de 2014

Ensaio sobre a reconciliação que não vingou.

Ensaiamos uma reconciliação que ninguém vê. São cegos ou nós é que somos? Entrego-me a você, de novo, corpo e alma. Sou outra vez tua, provavelmente, para sempre serei. Você me toca como toca o seu violão; sou a música que ninguém mais ouve. Só você. Meus mil e um acordes não lhe são estranhos, você me conhece de ponta a ponta.

O teu amor é uma conquista que eu nunca perdi. Mas declarar-me ele, você não declara mais. Sou uma luta vencida, sou uma coisa que você já tem. Por isso, debocha, faz pouco. Por saber que me tem nas mãos, simplesmente desfaz.

Duas noites sou tua, na terceira você é livre. Você é o chão, o mar, o vento. E vai. Na sua noite você é outros cem e vive outras mil histórias de amores de uma noite só. Histórias que você nunca vai me contar, mas eu sei que existem. Fantasio como quem gosta de se ferir; fantasio como quem é ingênuo, mas não aceita. Sou toda redenção.

Na tua bebedeira, sou eu o teu porto. Aquela que provavelmente você tem na mente, enquanto toca outras dezenas de lábios e corpos. Você insiste em mim, agarra em mim. Você me ama. Não quer, mas ama. Do seu jeito sádico, você me tem amor. Uma espécie doentia de amor, mas ainda assim: tem.

Com uma gravação de quatro míseros minutos, você me retoma, me reconquista. E ao vento me joga, quando não mais lhe sou aprazível. As letras da canção que é carregada de um amor piegas e um sotaque britânico carregadíssimo, me dizem coisas que dia e noite, tenho tentado ignorar.

"And after all, you're my wonderwall." No português bem brasileiro: "E depois de tudo, você é a minha protetora.". (Será que isso é tão importante quanto ser o teu amor?)

Fidelidade, afinal, é questão de corpo ou de alma? Sou-te fiel até o fim. E você? Será que você também é a mim?

Na sua noite, as luzes se apagam, o brilho é todo teu. E eu? De repente, sou de novo, só espera. Deitada sobre meus lençóis frios que foram durante todo o carnaval puras cinzas, sou eu uma festa a quem ninguém compareceu.

Ensaiamos essa reconciliação que talvez tenha murchado antes mesmo de começar. Quiçá, tudo tenha acabado, e só nos restou paixão. Amo teu corpo. O amo como se ele fosse minha última folha em branco, esperando para se tornar poesia. E então faço dele poesia; poesia de escárnio, volúpia e amor. Você ama o meu como quem ama notas de uma bela canção britânica, mas não ama o todo que sou.

Ensaiamos o amor, a paixão, o tesão. E por uma noite, uma droga de noite, pode ser que você tenha destruído tudo.

Todo o ensaio foi em vão. Gratidão a você.

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