terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Se você estivesse aqui

Essas narrativas silenciadas que eu guardo como farpas no peito cobram sempre um preço maior do que eu posso pagar. Não há alternativa, nem volta para este caminho. Há de ser o que tem que ser.

Fazem vários anos desde a primeira vez em que eu olhei para mim mesma e não me vi. Não havia futuro naquele corpo que era casa de dois. Aceitando, como fiz, tomei os rumos dessa jornada e disse, com medo, “vamos juntos”. Não tinha certeza do destino, não tinha certeza da minha própria capacidade, não conseguia mensurar a minha força.

Sentia como se não a tivesse. Como se nada além de nós houvesse. A minha dor, aquele medo extremo que me alcançava até os glóbulos do sangue, me faziam caminhar sem nada enxergar. Minhas amarras eram profundas, mas ali também minha cura estava.

Sempre que parava para pensar, via dois corações dentro do corpo. Este era o milagre pelo qual esperei toda a vida. Então, tive esperança.

Peguei aquela esperança e fiz um nó bem apertado em nós. Eu nos queria juntos. Você era a minha pessoa e eu seria, para sempre, a sua.

Vivi por você. Vivi para ver os seus olhos de jabuticaba, ouvir seu riso que eu esperava que fosse escandaloso como o meu, pentear seus cabelos, te ensinar a gostar de Beatles, te ensinar a ler lendo Clarice Lispector pra você...

Eu queria tanto aprender com você a querer viver. Digo, realmente querer viver, como essas pessoas que mesmo nos piores dias não pensam nem por um segundo em desistir, em morrer.

Bem, eu dizia para mim mesma que não pensaria. Não se tivesse você.

Porque chegar em casa, mesmo exausta, e te ver ali... o único pedaço meu que deu certo, que era vida da cabeça aos pés, era tudo o que eu queria.

Ao mesmo tempo eu pensava em te colocar nos braços e ganhar o mundo. Nós dois. Juntos. O que poderia nos impedir?

Poderíamos ter ido à Paris. Eu juntaria o dinheiro por um tempo e depois, nós sumiríamos. Eu abandonaria tudo para dar a você o privilégio de aprender francês e, quem sabe um dia, estudar na Sourbonne.

Eu cozinharia, lavaria pratos, limparia chãos. Tudo isso para que você pudesse ter o direito que não tive: o de ser plenamente feliz.

Isso seria a minha cura. Dar a você uma infância feliz, te ver crescer fora de mim e ser diferente, sem amarras, sem algemas, sem traumas que te ancoram a um eu que você não quer ser.

Veríamos o Sena todos os dias. Passaríamos férias em Provence ou Monte Carlo, você conheceria o mar e eu ouviria a minha música favorita: sua risada escandalosa.

Nós poderíamos ir para a Itália, Portugal, Berlim ou até pra Colômbia. Eu só queria que você soubesse que eu nos imaginava sempre longe daqui.

Viveríamos os meus sonhos e os seus também. Nós coexistiríamos e seríamos a cura um do outro, por mais que talvez você nem conhecesse as suas dores.

Eu trocaria toda a minha vida pela oportunidade de te ensinar a andar e ficar na outra ponta esperando o seu encontro, de braços abertos.

Eu ainda te espero. Ainda acordo no meio da noite e penso ter sentido você ainda protegido dentro de mim, mexendo. Faz parte do meu processo de cura deixar você ir, eu sei disso mesmo que inconscientemente, mas mesmo que quisesse muito, eu não conseguiria.

Todos os planos, os sonhos e até mesmo uma ponta da esperança ainda estão aqui. Sinta sempre o meu amor e a minha incondicional vontade de lutar para que em qualquer lugar que você esteja, me sinta viva, forte e aguentando firme.

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