segunda-feira, 18 de julho de 2016

minha carne rasga,
sangra
e apodrece em silêncio;
ninguém vê.


os demônios que guardo aqui dentro,
ah deus!
são companhia zelosa,
de prosa
e reza
sem fim.


pode até ser
que qualquer dia dê certo,
essa coisa de morrê.


pelo sim pelo não,
aposto em pedidos e promessas
pagãs
ao ser que tudo vê.


minha história é triste,
de luta,
e você sabe,
dor não dá samba.

mas a gente continua,
como quem engole
comida crua e sorri.

sorri à dor
e acena - que cena, enfim -

uma hora se cerra,
encerra,
e a gente caminha pro fim.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A minha dor tá em todo lugar.
Na rua, na esquina, no bar.
E quando lateja aqui dentro
chora que nem criança.
E a dor que sinto é da mãe
que não poderei mais ser.


Pode até ser
que um dia ou outro eu tenha de onde tirar
mais forças,
mas eu duvido.
Porque aqui, amigo,
acabou faz tempo.


Costumava fazer rima boa de amor
e compaixão, mas aí aconteceu que ficou assim:
só dor.


Eu costumava falar de amor
e até sentir,
ainda resta um pouco,
é isso,
de tudo ficou um pouco.
Só um pouco.


O todo virou a dor que nada cura.
Nada
nem
ninguém.


Parece até que é política,
estupro,
morte
e justiça.
Pra quem?
Mas eu sou carne e a minha dor
é de quem é carne,
pulsa.


Meu ventre lateja a dor de dois
abortos.
Oikos, casa, eco, mãe.
Fechada para sempre,
lacrada,
só mora a dor.

Só morador.

A última carta para Francisco.

Criei tantas histórias para te justificar, menti aos deuses e a mim mesma dizendo que, tudo bem, no fim tudo daria certo do nosso jeito.

O nosso jeito funcionava assim, eu te justificava e te perdoava por erros e pecados que você nunca reconheceria. Busquei em você o amor que não tive de ninguém, nem se quer de mim mesma. Talvez esse tenha sido o meu maior erro. Indago ainda: será?

Por algum tempo, alguns meses, busquei - em vão - por respostas que me dissessem o por que de tudo. Pode não parecer agora, mas eu lhe tinha tanto amor...

Todo esse amor com o tempo ficou gasto, puído, como um pedaço de pano velho, gasto de tanto uso. Eu o nomeei "manchado", você ainda se lembraria se eu dissesse? Não sei em que parte do percurso ficou tudo assim, dolorido.

Acho que foi naquele setembro cinza em que enterrei, sozinha, nossa filha. Tuas lágrimas de crocodilo me convenceram na época, talvez até convencessem hoje, no fim de tudo eu só precisava saber que alguém sentia pelo menos uma parte do que me destruíra por inteiro.

Só que você é de pedra; pedra e mentiras.

Você me acusava de ser o reflexo daquilo cujo você recusava-se a enxergar. Eu era a imagem da tua essência, pintada com sangue pelas tuas mãos grandes. Quantas vezes tua boca profana me acusou de mentirosa, Francisco? Uma piada, deveria ser no entanto, visto que dos teus lábios só saiam mentiras.

Acho que tudo ficou dolorido quando você concedeu a si mesmo o papel de juiz. Lembraria se eu dissesse? Talvez não.

O fato é que eu me lembro, tá tudo aqui, Francisco, feito tatuagem na minha pele. As marcas que você, com o seu tipo único de carinho, fez questão de desenhar - uma a uma -. Naquele setembro cinza, eu me lembro, você julgou que eu não mais merecia teu amor. Eu insistia, dizia que o amava para ouvir toda a dor e crueldade implícitas no teu silêncio.

Qualquer dor, mesmo física, era melhor que não sentir nada.

Morri um pouco mais naquele mês. Um pouco mais do que achava possível.

Morri e, pior do que isso, enrijeci o coração.

Certa vez, uns anos depois, você me disse que não me reconhecia mais. Não gosta do que vê, Francisco? Ora essa, foi você mesmo quem pintou esse quadro.

A tua obra de arte sou eu, querido. Com toda essa acidez e amargura, o teu mais bonito quadro sou eu.

Hora ou outra você chegará até aqui e lerá isso, esse apanhado de farpas que guardei na garganta por um ano e alguns meses. Você me sentenciou a isso, mas eu te devolvo toda essa dor com, finalmente, perdão.

Você já não faz mais parte de mim. Atestei minha liberdade só ontem, tardou, mas veio. Alforriada sou, enfim!

Talvez um dia nos sentemos num café para falarmos sobre a minha dor, essa de quem é mãe, que você nunca conhecerá. Você é breu, em suas entranhas só habita teu ego, esse forte e imensurável bloco de uma suposta masculinidade carregada de misoginia. Isso tudo não me assusta, não mais.

"Livre do teu veneno eu sou mais pura", cito agora você mesmo.

Eu te amei. Amei mais do que todas as minhas palavras possam mensurar. E o amor que senti foi como um gole intenso de um vinho duro*.

Só queria que soubesse que todo esse tempo eu esperei apenas que dissesse que sentia, ao menos um pedacinho, da minha dor. Absolvi-me de toda a culpa por ter dado errado e me libertei, tudo o que aconteceu, não foi por minha escolha.

Sou a tua obra-prima, manchada da cabeça aos pés pelo teu não-amor. Por isso, me admiro e me absolvo. Esperei muito tempo por isso, agora, avante.

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*Vinho duro: É aquele que possui excesso de taninos. Por esse motivo, o mesmo deixa uma profunda sensação de amargor e secura no fundo da língua.

domingo, 23 de agosto de 2015

dia de luz, festa de som

será lindo o dia em que tudo for perfeito;
o Sol brilhará e tocará nossos corpos com leveza,
sem fazer suar.

nesse dia tão lindo
não haverá tristeza
nem dor.
dor: o que é?

o nada tornar-se-há verbo
e o vazio de dor
será puro amor.

nesse dia,
que talvez seja em setembro,
as flores beijarão as árvores
e eu beijarei você de olhos abertos
- para ter certeza de que tudo é real -.

nada de ruim nos alcançará,
nesse dia tão lindo
e especial
que nunca existirá.

não existirá por que não haverá dia
sem dor ou problema.
e não há poema capaz de versar
sobre a falácia que é essa promessa.

dói a bessa pensar que esse dia
nunca existirá.

mas é mesmo assim que se seguem os dias,
em torno desse tal dia que de tão perfeito
nunca existirá.

você vai dizendo que nele faremos tudo o que eu quero
e todos os meus sonhos serão realizados,
e eu finjo que acredito
por que desses teus lábios lindos,
eu aceito qualquer mentira barata.

ah! que lindo será esse dia
que nunca existirá.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

De-sen-fer-ru-jar

Faz meses que não escrevo. Tento, a partir destas teclas que correm entre meus dedos, procurar palavras para dizer o que minha boca não diz. Se der certo, é poesia. Se não der, também.

Ouvi uma ou duas vezes histórias de quem é feliz e triste. O poeta nos disse que é melhor ser alegre que ser triste. Questiono: Será mesmo? Os caminhos por vezes se fazem turvos, todavia, em minha penumbra resplandece essa luz que nada apaga. O combustível é o amor. Cômico. Há uns meses eu jurava que o amor era um zé-ninguém caído em uma esquina qualquer. O amor que eu conheci costumava doer. Esse não.

Quem diria.

Consegui enxergar beleza na rotina e aprendi a dar risada das desventuras - que quase sempre são em série -. Novamente, quem diria?

Olho pro teclado e quase nada me ocorre, só sei que só penso em escrever sobre amor - que diabo será isso? -. Em diálogos mentais indago-me uma porção de vezes por dia sobre o futuro; o amor é essa coisa também, quero dizer, dúvida. Amanheço com taquicardia, meu coração quase foge do peito. Deve ser a falta do cigarro. Não fumo há meses. Amar também é abrir mão: abandonar certos vícios, adquirir novos.

O amor faz com a gente uma coisa que até pode ser chamada de cura. Funciona mais ou menos como juntar todos os pedaços e costurar tudo, uma espécie de enorme retalhar, isso mesmo, e de repente certas coisas não doem mais. Ou talvez doam, mas não como antes.

A gente se olha e não se reconhece mais. O espelho mente. E de uma hora pra outra a gente volta a sorrir e sorri com a alma, coisa bonita demais de se ver. Eu gosto. Gosto de ver em mim um sorriso livre de amarras, livre de angústias. Puro feito o que eu tenho sentido.

Não deveria ser assim. É cruel e ilegítimo entregar-se a alguém dessa forma. Penso que não é humano e então, despenso. Será mesmo que há explicação científica para essa coisa de confiar-se totalmente à outra pessoa? Minh'alma de meretriz é uma história a se contar, é hoje um caso a parte, uma história de pertencimento e devoção. O amor fez isso também.

Aqui, na Terra do Sol, os dias são claros e quentes, a tristeza quase nunca se faz presente. O calor aquece o coração da gente, coisa boa de sentir, um sentimento novo para mim. Tudo se faz esperança, renovo, recomeço. É tudo mais bonito.

Gosto com gosto dessa história e não é porque é minha. Gosto porque é levinha e docinha e tem o cotidiano como pano de fundo. Gosto de coisas que não são complicadas de escrever ou contar, mas que ainda assim, dão um nó na cabeça da gente por serem justinho assim, bonitas demais. E todas as palavras tornam-se inócuas quando se trata de falar de coisas bonitas. Ninguém conta o amor.

Ninguém.
Nem eu.

De qualquer forma, pensei em escrever duas ou três coisas que pudessem testificar a beleza do que hoje sinto e aqui estou; quisera eu poder descrever com exatidão a magnitude desse sentimento que é tão transformador que mesmo em dias cinzas como este, se faz aconchego e certeza de dias melhores. E, sabe, é totalmente novo para mim escrever sobre quaisquer coisas que não sejam promíscuas, impalpáveis ou infelizes, por isso, é provável que eu erre ou que pule um detalhe importante qualquer, o que importa sinceramente é a vontade de falar sobre isso que já não cabe em mim.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um pânico me congela as extremidades,
coisa
de
covarde;
julgo.

Besteira!

É normal temer
o que se quer tanto
e chegar a pensar
que não quer.

Porque de tanto querer,
estraga.
Amarga.
Aparta.

Será?

Engulo o choro,
a ânsia.
Engulo tudo,
menos o
gozo
dela.

Converso com as paredes
e flores,
verso para o reflexo no
espelho,
me compadeço da dor
que não é minha - a minha dor,
quem acolhe?

Aqui é nó,
lá é laço.
Aqui sou só,
lá abraço.

Minhas rimas pobres
e insossas
talvez façam algum sentido
acolá;

Na Terra do Sol,
onde todo dia
é dia.
É dia.
Dela.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Helena,

há muito tempo não lhe escrevo. Os tempos mudaram. As estações também. Escrevo-te agora do alto das cinzas do meu passado, queimei tudo o que era dele. Sua ausência não mais me dói; nada mais sinto, nada de bonito. Certa vez lhe disse que seria impossível destruir tudo o que sentia, parece que me enganei.

Nesses meses que se sucederam, criei novas rotinas todos os dias. Procurei o cheiro e lábios dele em tantos outros que meus dedos são poucos para contar. Persegui minhas memórias e desenterrei toda a minha dor; descobri-me no fim da linha, no fundo do poço, só então vi o que sempre esteve tangível e que rejeitei: nossa história nunca existiu.

Minha solidão era tamanha que trocava o corpo por migalhas de afeto. Todos os dias tentava me convencer de que talvez fosse mesmo minha culpa. Minha mania de exigir demais, minha carência sem fim, meu amor descabido, minhas declarações piegas, meu emocional em frangalhos, meus traumas... Arranjei tantas desculpas para justificá-lo, Helena, tantas vezes eu disse para mim mesma que tudo bem, que só essa vez e nunca mais. Nunca era a última vez.

Culpei também os outros. Minha mãe, irmãos, amigos. "A maldade está nos outros", repetia.

Revesti-me da fantasia que me vendava para que eu mesma não visse que as manchas na pele não eram de carícias. Ah querida, como me doía quando ele gritava e gritava, e a culpa era minha. Como me doía o medo, o fechar os olhos para não sentir a mão pesada no meu rosto. Minh'alma chorava baixinho, porque bem como ele dizia, "se fizer escândalo vai ser pior pra você e não pra mim". Obedecia.

Fui capaz de amá-lo ainda assim, Helena. Fui capaz de justificá-lo todas as vezes, mas perdoar seria pedir muito. Tentei, confesso. Em vão. Trabalhei a transferência de culpa, como lhe disse antes, pensava que se eu não provocasse, que se eu não respondesse, não pensasse, falasse, respirasse. Seria possível ter evitar tudo isso? Questiono ainda.

Em faces de uma nova possibilidade, este lindo romance que agora vivo, percebo a dimensão dos danos que meu antigo relacionamento causou-me. Helena, seria estranho se te dissesse que pela primeira vez na vida me sinto feliz? Sei que muitas vezes lhe jurei não ser capaz de sentir essa coisa assustadora, mas olhe para mim agora. Escrevo sobre um amor levinho, dou risada, sou engraçada outra vez. Recebo inúmeras mensagens apaixonadas durante o dia, sorrio boba. Voltei a dançar. Não fumo mais.

Tenho experimentado a embriaguez de quem vive sóbrio, vinte e quatro horas por dia sinto-me especial; o cotidiano e corriqueiro são de um tesão inédito ao lado dela. Tenho ouvido bossa-nova outra vez e aprendi que a revolução se faz com amor.

O amor, Helena. Ele muda o mundo. E a vida da gente também.

Meu amargor converteu-se numa doçura sem fim. Nossos signos de fogo são um incêndio e juntas somos a poesia mais bonita que eu já vi na vida. Minhas marcas de dor ela chama de marcas de sobrevivência e acaricia. Atenciosa, sempre preocupada em cuidar para que eu não mais me lembre do que passou; é como viver finalmente sobre o que tanto falamos. O amor. Aquele que não se pede.

Escrevo-te enquanto escuto Gal Costa dizer "Ninguém pode parar meu coração que é teu", anote, Helena: meu coração é dela; seu abraço me juntou todas as partes soltas. Seu amor me reestruturou.

Aquela velha dor não mais me dói, escrevi-te justamente para contar a nova. Finalmente, está tudo acabado.

Volto a escrever para dizer que mudei de ares. Farei isso em breve.

Cuida do teu coração, querida. Finalmente aprendi a cuidar do meu.

Rio de Janeiro, 14 de agosto de 2014.