terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Prefiro morrer a ser escrava

Não vou
Perdoar
Esquecer
Relevar

Não vou viver
em favor
dessa maldita dor
que me corrói
da pele à alma

Não vou ser a sua
Maldita escrava
Ou a sua Filhinha
E eu vou dizer pra todo mundo

Gritar 
Falar até pra desconhecidos

Você não me tem mais
Nunca mais

Não vou te dar o doce gosto
de me ver enlouquecer
Eu me nego a isso

Não vou dar a você
o direito
a permissão
de fazer de mim o que bem entende 

Você vai ter que engolir
que eu sobrevivi

Vai ter que engolir que
Eu não sou você
Eu não me pareço com você
Eu não te amo
E eu não vou ficar quietinha

Não vou escrever em terceira pessoa;
Eu assumo esse maldito sujeito de me ser
Vou sobreviver dia após dia
Enquanto seus restos apodrecem bem longe de mim

Talvez eu nunca seja feliz,
Mas de uma coisa eu sei:
Eu nunca vou te pertencer.

Sejamos o que somos

Que a gente nem sempre
Tenha que gritar
pra ser ouvido
Tenha que chorar
pra ser acolhido 
Tenha que morrer
pra ser percebido

Que a gente nem sempre
tenha que viver de aparências
que não pode bancar
Ou
Conviver com pessoas que
não sabem amar

Que nem sempre
A gente tenha que sorrir apertado
Pra esconder o buraco
No peito, na alma

Que a gente não tenha sempre
Que lutar contra a força de si mesmo
E se forçar a ser menor do que é
Só pra caber no que os outros
esperam 

Que a gente não tenha que murchar
a barriga
Não tenha que esconder
as cicatrizes
Não tenha que tatuar por cima
pra apagar o que não quer que os outros lembrem

Que a gente não tenha nunca mais
que prender o choro até chegar em casa
E chegar tão cansado que mal aguenta chorar

Que a gente não tenha que
maquiar o rosto pra mascarar
o choro

Que a gente não precise
Nunca mais
Declarar o amor que não sente
E disfarçar as marcas na alma
Do amor que sentiu

Que a gente não se esqueça
De esquecer de fazer todas essas coisas

Que nunca mais precisemos
Usar a cinta apertada
A maquiagem marcada
A cintura bem alta
Tudo para disfarçar o que incomoda os outros

Que a gente não guarde o nosso aperto
pra sentir o dos outros

Que a gente nunca mais
acredite que vale a pena 
ser o que não somos
crer no que não cremos
viver se não queremos

Que a gente não tenha
Não precise 
Não queira
Não faça
Nem agora
Nem nunca mais

O pulso ainda pulsa

Esta
maldita profusão
de coisas
que não se pode
engolir 

Costumava haver
certo motivo
razão
causa
ou
circunstância
pelo que velar

Era de costume
sempre olhar
para trás;
para atravessar 

Há agora
ainda
um amontoado
de entalhos
que não se desprendem
presos 
nesta garganta amarga
que saliva e regurgita
este veneno 
que agora lês

E pulsa
nesse movimento
em contrassintonia
à vontade de gritar
até estancar a ferida

Não há nada pelo que
olhar

Não há faixa
segura
para pisar

Não há
mão
para
segurar 

Há somente
o maldito
espaço
entre
este
insosso 
desgosto de me ser
e o que ainda é incólume

Estas palavras
e farpas
que voam 
soltas
em mim.

Processo criativo

Há ainda um enxame 
Tão lindo
E desinibido
Que cresce em mim

Um turbilhão
Mais de cem mil 
Ou um milhão 

Micro-explosões 
Em bilhões de
Pequenos neurônios 

Rabiscos e cores
À sorte de ninguém 
Esperando que um dia
Cheguem a respirar fora
Deste micro-lar

Contracorrente,
A poesia que nunca escrevi;
Aquela que nunca
Nascera

Entrenós há um terço 
De reza
Que preza 
Por esse início
Que mal começou
E já é o meio
De um fim.

Futuro maldito

Nós vamos
Ensinar 
Experimentar
Testar

Nós vamos
Fazer e acontecer

E vamos
Fazer você chegar a lua,
mas antes, você nos dará
sua alma

Nós prometemos:
Não existem promessas
E regras
Ou relações

Há somente o subentendido 
Esse velho amigo
Que lhe guiará
Ao orgasmo absoluto

E no fim,
todas as aliterações,
as anáforas,
as metástases literárias,
serão uma porção de
promessas desfeitas
(que nunca fizemos)
e que vamos quebrar

Nós vamos cercear
Encarcerar
Delimitar
E, finalmente, matar

Cada pedaço do seu
precioso processo
de formação
linguística;
é isso:
não terá servido, enfim,
para coisa alguma

Nós vamos
engolir
deglutir 
e regurgitar
suas palavras
bilíngues 

E então,
só então,
você entenderá:
coisa alguma
é mais
do que se pode
imaginar.

O que a gente é/O que a gente quer

Primeiro,
um ávido 
aviso
para que sigam;
e quem o dá,
amigo é:

Engulam seus orgulhos
e regurgitem suas
malditas falácias honrosas;
(quanto antes!)
uma hora ou outra
morrerão engasgados
(vocês)
e eu,
de rir.

Trágica é a comédia
da vida que não é real;

nem sequer
nos opusemos a este
futuro;
que não desejamos
nem rascunhamos
em tempo nenhum

Parecia mesmo 
que todos os caminhos
nos levavam
a nós;
apertados e
juntos.

Até mesmo deixar
ao deus-dará
parecia mais certo
que acreditar
naquilo que
já sabíamos
ou
pelo menos,
devíamos:

A tragédia,
anunciada,
não era grega
nem romana;
era pior

Em que realidade
alternativa
ou mundo
futurístico
seríamos nós
os vilões?

Entendam, vocês:
Algumas dores são
alívios futuros
Entendi isso tão cedo
(graças e gritos)

E mesmo que não
vejam:
há sempre uma mão 
enorme 
sobre as nossas 
cabeças,
que escreve
conforme
o que a gente é
e não,
conforme
o que a gente quer.

Recriar meu 'eu'

Eu
Tenho mesmo trejeitos
E
(desculpe o mal feito)
Não sou boa em quase nada

Nessa estrada,
padeço,
sem eira nem beira,
como quem cheira
e pede 
e roga
outro trago.

Eu
que não tenho sonhos
que não tenho fé
que não penso em ninguém,
além de você,
mulher

E
que pode até ser
que não seja como você quer,
mas sou (e é) assim mesmo
que é.

Eu
que sou mais instantes 
que momentos
que sou mais estar
do quer ser
que sou mais rompantes 
e intrigantes diálogos
sem fim.

E
pode até ser
que nessa rima sem métrica
minha prosa vire
a tua poesia,
mas será?
será mesmo que por trás
de toda essa rasgação 
de seda,
exista mesmo
uma fenda,
pra gente passar;
e atravessar tão espesso
mar
do amar
em conjunto.